por A.J.Tolissano
O cinema brasileiro sempre oscilou entre o reconhecimento crítico e a sobrevivência industrial. Em poucos momentos essas duas forças se encontraram de forma tão intensa quanto na Boca do Lixo.
Este artigo não pretende organizar ou domesticar esse fenômeno. Pelo contrário. Assume sua desordem como linguagem. Os cinco filmes aqui analisados não pedem permissão, eles invadem, provocam e, por vezes, incomodam.
Mais do que obras, são gestos. Mais do que narrativas, são confrontos.

A Boca do Lixo não foi apenas um lugar. Foi um estado de espírito.
Enquanto o cinema buscava legitimidade, a Boca buscava sobrevivência. Enquanto alguns queriam reconhecimento internacional, outros queriam pagar as contas. No meio disso, criaram um dos cinemas mais livres já feitos no Brasil.
Entre erotismo, violência, humor e filosofia, surgiu um cinema que não pedia desculpas.
Este artigo é uma tentativa de olhar para esses filmes não com distanciamento acadêmico, mas com envolvimento, quase como quem entra em um bar decadente e percebe que ali existe mais verdade do que em muitos discursos sofisticados.
Sem delongas, vamos aos filmes.
O caos como linguagem
(O Bandido da Luz Vermelha)

Aqui, Rogério Sganzerla destrói o cinema tradicional para construir algo novo. A narrativa fragmentada não é estilo, é sintoma.
A cidade de São Paulo aparece como um organismo em colapso, e o protagonista deixa de ser indivíduo para se tornar reflexo social.

Este não é um filme. É um colapso filmado.
O Bandido da Luz Vermelha é um clássico filme brasileiro de 1968, dirigido e escrito por Rogério Sganzerla quando ele tinha apenas 21 anos. A obra é considerada o maior símbolo do Cinema Marginal, um movimento de contracultura que revolucionou a estética do cinema nacional na época da ditadura militar.
O corpo como território de poder
(A Mulher de Todos)

O erotismo aqui não seduz, confronta.
A personagem central transforma o próprio corpo em linguagem política, revelando que desejo e consumo operam sob a mesma lógica.
A Mulher de Todos é um clássico filme brasileiro lançado em 1969, também dirigido por Rogério Sganzerla. O longa é considerado um dos maiores marcos do Cinema Marginal no Brasil e figura na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da Abraccine

A banalidade da violência
(Matou a Família e Foi ao Cinema)

Júlio Bressane remove qualquer explicação da violência.
O gesto extremo não choca pela intensidade, mas pela ausência de sentido.

Matou a Família e Foi ao Cinema é um emblemático filme brasileiro lançado em 1969, dirigido e roteirizado por Júlio Bressane. A obra é considerada um dos pilares do Cinema Marginal, movimento cinematográfico que desafiava a estética tradicional e a censura da época através do grotesco, da ironia e de narrativas fragmentadas
Utopia e delírio
(A Ilha dos Prazeres Proibidos)

Carlos Reichenbach cria um espaço onde a realidade se dissolve.
A ilha não existe, é projeção de um desejo coletivo reprimido.
A Ilha dos Prazeres Proibidos é um clássico do cinema brasileiro de 1979, dirigido pelo cineasta Carlos Reichenbach, que mistura os gêneros de suspense político, espionagem e erotismo.

Foi o maior sucesso comercial do diretor, atraindo cerca de 4 milhões de espectadores aos cinemas.
O horror como filosofia
(Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver)

“Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967) é um dos maiores clássicos do cinema de terror brasileiro. Escrito, dirigido e estrelado por José Mojica Marins, o filme é a segunda parte da famosa “Trilogia Maldita” do icônico personagem Zé do Caixão.

José Mojica Marins cria, através do Zé do Caixão, um pensamento radical.
O horror não está no sobrenatural, mas na recusa da moral.
O longa é quase todo em preto e branco. A exceção é a famosa e perturbadora sequência do pesadelo de Zé do Caixão no Inferno, filmada inteiramente em cores bem vivas.Reconhecimento: O filme faz parte da lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da Abraccine.

A Boca do Lixo nunca pediu legitimidade, talvez seja exatamente por isso que ela permanece viva.
Seus filmes não envelhecem bem porque nunca tentaram ser corretos. Eles continuam desconfortáveis, excessivos e, acima de tudo, honestos.
Num cinema cada vez mais domesticado, revisitar a Boca do Lixo não é nostalgia.
É resistência
Existe mais de uma centena de filmes produzidos pelo movimento, aqui destaquei apenas cinco.
Espero que tenham gostado. Você conhecia o movimento? Qual filme que você acha que faltou aqui? Coloca nos comentários e até sexta que vem com mais cinema, histórias, poemas e etcs.
Beijo no coração, nos vemos por aí.

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