BOCA DO LIXO e o CINEMA MARGINAL BRASILEIRO

A Boca do Lixo representa um dos momentos mais ousados e produtivos do cinema brasileiro. Entre experimentação estética, apelo popular e provocação temática, seus filmes desafiaram convenções e criaram uma linguagem própria.

Hoje dou inicio a um conjunto de artigos com uma leitura crítica de dez obras fundamentais desse universo.

Olá, eu sou A.J.Tolissano; escritor, roteirista, diretor de audiovisual e um amante de gaitas.

Boca do Lixo é uma região não-oficial do centro da cidade de São Paulo localizada no bairro da Luz, em um quadrilátero que inclui a rua do Triunfo, a rua Vitória e adjacências. Notabilizou-se por ter se abrigado um polo cinematográfico desde as décadas de 1920 e 1930, quando empresas como a Paramount, a Fox e a MGM se instalaram na região. Nas décadas seguintes, essas companhias atraíram distribuidoras, fábricas de equipamentos especializados, serviços de manutenção técnica e outras empresas do ramo cinematográfico para as redondezas. Entre o fim dos anos 1960 e o começo dos anos 1980, a Boca do Lixo tornou-se um reduto do cinema independente brasileiro, desvinculado dos incentivos governamentais. Durante aqueles anos, era comum ver homens guiando carroças carregadas de latas de filmes pela via pública.

Muitos cineastas, como Carlos Reichenbach, José Antônio Garcia, José Mojica Marins, Alfredo Sternheim, Juan Bajon, Cláudio Cunha, Julio Bressane, Rogério Sganzerla ou Walter Hugo Khouri, Luiz Castelini, tinham clara proposta autoral em seus filmes, mas a produção da Boca ficou mesmo caracterizada pelos filmes baratos e que tinham forte apelo sexual. Dick Danello expandiu na pornochanchada dos anos 1970, com musas como Helena Ramos, Sandra Bréa, Vanessa Alves, Patrícia Scalvi, Nicole Puzzi, Zilda Mayo. Comédias, dramas, policiais, faroestes, filmes de ação e de kung fu, terror, entre outros, foram gêneros explorados pelo cinema da Boca, sem deixar de lado o uso restrito do erotismo. Produtores como Antônio Polo Galante, David Cardoso, Nelson Teixeira Mendes, Juan Bajo Bajon, Cláudio Cunha, Aníbal Massainio entre outros, ficaram milionários com esse tipo de cinema. Dick Danello foi outra figura importante para a Boca, responsável pela composição da trilha sonora de vários filmes.

Alguns tiveram sucesso de bilheteria, entre os quais A Viúva Virgem, de Rovai, e Giselle, de Victor di Mello. Com raras exceções, esses filmes não eram muito apreciados pela crítica especializada, que preferia os filmes mais voltados à questão social, de diretores ligados ao Cinema Novo e, nos anos 1970, integrados à Embrafilme, que produzia filmes com incentivo estatal.

O declínio

O fim do regime militar no Brasil trouxe a liberação de filmes com cenas de sexo explícito, o que acabou matando essa indústria cinematográfica.

No próximo artigo, vou destacar alguns filmes fundamentais do período.

Espero que tenha gostado. Aguardo ansioso seus comentários e sua visita no próximo artigo. Até lá.

O “escritório” da BOCA do LIXO

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