
Mesa posta desde as cinco da manhã.
— Hoje vou capinar o quintal de dona Esmeralda e limpar a caixa de gorduras do seu Sandoval. Eu sei mamãe, eu sei. Mas nós precisamos de dinheiro. Papai sumiu há dois meses. Não dá sinal de vida e nem manda dinheiro. A senhora nessas condições… — Oziel bebe um gole de café e se arrepende de ter tocado no assunto: — Não fica assim, mamãe. Não ligo de trabalhar nas minhas horas vaga. Não se preocupe de eu ficar cansado. É um prazer cuidar da senhora.
Eu sei que não gosta do senhor Sandoval, mas ele está me ensinando uma profissão. — liga a televisão, beija a testa da mãe: — Eu sei mamãe, queria passar mais tempo com a senhora. Mas, estou trabalhando duro no seu presente. Faltam vinte e sete dias para seu aniversário. — Sai trancando a porta.
Oziel enxuga o suor que escorre da testa com o peito da mão.
— Cansado, filho? Pode continuar amanhã.
— Vou terminar hoje D. Esmeralda, dei minha palavra.
— Querido, não há problema algum.
— Já vou terminar.
— Como está sua mãe?
— Vai se recuperar. Logo, logo ela reage.
— Pobre mulher, a vida inteira correndo atrás do seu pai. Parece que dessa vez ele não volta.
— Por favor! Não quero falar sobre isso.
— Ela não vai atrás dele?
— Chega, D. Esmeralda! — Oziel joga a enxada no chão e vai embora.
Cinco horas depois.
Oziel bate na porta do porão. Sandoval abre.
— Estou no horário, mestre?
— Sempre pontual. Vamos, entre. — No porão com pouca iluminação, há animais empalhados de várias espécies.
Oziel vai direto para a bancada, trabalha em um gorila.
— Sempre me pergunto o porquê um garoto de treze anos quer aprender a empalhar bichos com um velho caduco.
Com um corte preciso, Oziel abre o tórax do gorila, enfia o braço até o cotovelo e retira as vísceras.
— Poderia estar fazendo qualquer coisa que os outros garotos em sua idade costumam fazer.
Com o coração do animal na mão diz:
— Quero aprender com o senhor a arte de eternizar. Um dia serei o melhor taxidermista.
— Então, quero que guarde uma coisa para o resto da vida se quiser ser um bom taxidermista.
— Pode falar mestre.
— Toda profissão tem seu valor, mas essa é uma arte. — Fala lapidando o molde de gesso: — Precisa de muito trabalho, muita técnica e muito talento.
— Quero aprender tudo com o senhor.
— Você pode até aprender tudo, mas não comigo.
— O senhor é o melhor de todos.
— Ninguém ensina tudo, garoto. Mas, me conta como está o projeto e em que animal está trabalhando? Nunca me mostrou…
— Mestre, gostaria de perguntar uma coisa. É possível aplicar a arte em pessoas?
— E quem empalharia uma pessoa?
— O senhor fala todo tempo que taxidermia é a arte de eternizar.
— Sua mãe está piorando? Oziel, não está pensando…
— A minha mãe está quase boa, falta pouco para ficar boa para sempre! — Oziel vai embora batendo a porta.
Vinte e sete dias depois.
— Parabéns para você, mamãe. — Oziel coloca uma caixa de madeira quadrada sobre a mesa.
— Espero que goste, é meu primeiro trabalho sozinho.
Oziel abre a caixa, antes vai até a cozinha, pega uma seringa preparada. Volta à sala com a seringa na mão.
— Prometo que essa vai ser a última vez.
Aplica. Certifica-se do efeito desejado conferindo às pupilas. Solta os braços das fivelas de couro e arranca a fita da boca.
— Sinto muito mamãe, sinto mesmo, mas não podia arriscar. — ajeita os cabelos da mãe e lhe beija a testa.
— O que mais gosto da taxidermia é poder eternizar os bichos.
Oziel pega a furadeira, liga na tomada e testa apertando o gatilho. Coloca sobre a mesa novamente. Olha para a mãe e sussurra:
— Nunca mais vai precisar ir atrás de papai, nunca mais, mamãe.
Oziel pega a furadeira sobre a mesa.
Fura a parede.
Coloca um vidro com um coração submerso em um líquido transparente sobre o colo da mãe. Pega a cabeça e pendura na parede.
— Acho que levo jeito mamãe, até parece que ele está sorrindo. Papai nunca mais vai embora de casa.

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