A Diarista

Sou diarista. Na prática, trabalho em duas ou três casas diferentes por semana. Hoje é sexta-feira. Para muitos, o melhor dia e o começo do fim de semana, mas, para mim, é completamente o contrário. Hoje é um dia de terror, de angústia, de ser usada como um pedaço de carne pelo homem que um dia dizia me amar e hoje me chama de “bruaca”.

A patroa me liberou cedo — afinal, como disse, “hoje é sexta-feira”. Ando pela rua achando que o tempo vai parar e vou conseguir me livrar dessa noite de terror. Sento-me um pouco na praça. Observo os pássaros pegando as migalhas que as pessoas jogam. Se pelo menos me alegrasse com esses pássaros…

Eu choro sozinha. Sem hora marcada ou motivo aparente. O choro não tem e, ao mesmo tempo, tem motivos. Os motivos não são diretos, e sim diários, permanentes. Eles não aparecem, estão. Não tenho vontade de fazer nada, a vida vai acontecendo, se arrastando, andando sei lá para onde.

Vejo os casais de mãos dadas, algo tão simples que é tão difícil na minha merda de vida. Às vezes, tento reagir, faço as unhas, preparo o cabelo. Em vão. Nada muda a situação.

Sexta-feira à noite. Quantos casais próximos a mim já se beijaram hoje, meu deus! Quanto tempo faz que não ganho um beijo, um estalinho que seja!

Estou em casa, chego sempre na frente. Antes, às sextas-feiras, tentava fazer alguma coisa do tipo colocar perfume na cama, mas ele reclamava do cheiro forte. Então colocava uma roupa íntima mais sexy, ele me chamava de ridícula. Penteado ou maquiagem, perguntava “para que” aquilo.

Com o tempo, a coisa não melhora e nem fica comum — antes fosse comum.  O pior é que piora, fica mais doído e fedido. Não é uma dor física ou um cheiro ruim que entre em meu nariz, não. É um fedor do apodrecimento da alma, uma dor aguda no peito.

Antes de deitar-se, encho meu sexo com gel lubrificante. Acho que nem percebe. Como aqueles caras que gostam de trepar com mortos, deus que me perdoe, não se importa se vou mexer, gemer ou molhar.

Ele ainda não chegou. Deito-me e fico como morta, quietinha na esperança de esquecer e deixar essa bobagem de trepar para lá. Sei que, para ele, tanto faz, então para que me humilhar desse jeito? Sinto-me um pedaço de carne podre.

Escuto a chave entrar na porta, meu coração dispara. O único que poderia me salvar está lá no quarto isolado e cansado de ouvir reclamações sobre luz, comida e todas as outras coisas.

Meu desespero é tamanho que posso ouvir a chave rodando na fechadura. A porta se abre e se fecha. Aperto meus olhos, serro meus braços bem junto ao corpo e fico como morta. O barulho é, para mim, um cronômetro do desespero.

Sei que jogou suas coisas de motorista no chão da sala. As roupas de “leão” jogadas no banheiro. Chuveiro aberto alguns segundos e o barulho de água caindo no corpo me faz lembrar de outros tempos. Não me importo com a mudança do corpo. Corpo fino e belo que virou um tanque de guerra, não é esse o problema.

O sexo de três ou quatro gozadas, gostoso, virou um sexo insosso, isso também não é o caso. Se o tanque de guerra não atirasse ou o sexo semanal fosse com amor… O principal problema é o coração de carne ter virado mármore.

Escuto ligar a televisão. Meu deus, que inferno! O pior da demora é alimentar a esperança de ele desistir de me usar hoje…

O barulho da latinha de cerveja abrindo parece furar meus tímpanos. Queria conseguir dormir, mas o medo de acordar com ele dentro de mim e babando o meu rosto me deixa com insônia.

Poucas horas se passam — para mim, parecem dias ou anos, sei lá… Que sexta-feira miserável, que semana miserável, que mês miserável, que ano miserável, que vida!…

…A televisão se cala. Os passos se aproximam. O monstro está chegando e a única coisa que tenho para amenizar minha dor é o gel lubrificante. Cálculo o tempo deitada de lado, antes que a porta se abra definitivamente. Com a mão trêmula de pavor, espirro mais gel na minha…

…Ele tira a roupa. Estou com os olhos fechados, na esperança de respeitar meu sono de mentira. Percebo a roupa cair com os ouvidos. Deita e me vira, para que fique de barriga para cima. Continuo com os olhos fechados e, agora, com as pernas travadas. É inútil. Como um necrófilo, arranca minha roupa e invade sem tomar conhecimento da minha vontade.

A cada sexta-feira, parece que o sofrimento fica mais demorado. Me suja toda e eu me sinto imunda. Ele, então, me vira de costas. O desespero toma conta de mim — esqueci-me de lambuzar com o gel atrás. Não vou aguentar ficar quieta, vai doer muito, vou gritar…

…Graças a Deus pela mirradinha, a ereção não volta e eu fico protegida por, pelo menos, mais uma semana.

O sexo mecânico está cada vez pior. Escuto me chamar de “bruaca maldita” pelo atraso, e me culpar por causa daquele sexo doente e sem sal de toda semana.

Só fizemos amor na primeira noite, depois a realidade inundou a minha vida e nunca mais consegui sorrir. A partir da segunda vez, o sexo sempre foi preto e branco, talvez por isso deus nos poupasse de produzir uma cria.

Escuto as mulheres no salão falar de gozar. Algumas patroas que tive também falaram disso perto de mim. Não sei o que é e nem tenho ideia do que seja.

Sábado, passo roupa para dois rapazes que vivem juntos há algum tempo. Deixo a comida de ontem em cima do fogão para Tuca, que tem curso de enfermagem hoje, e saio. O monstro saiu antes de eu acordar. Na verdade, eu acordei primeiro.

Os rapazes puxam conversa comigo, riem, e eu sempre quieta, pensando na minha merda de vida. Quanto mais vejo felicidade, pior fico. Acredite: não é inveja, e sim desesperança.

Não lembro a última vez que consegui rir de verdade, sem fingimento e sem enganar as pessoas que queremos que fiquem por perto ou as de onde tiramos o sustento. Para essas, precisamos rir de vez em quando, mesmo que seja chorando.

            Estou indo para casa. Mais um dia como os outros. Hoje vou ser a última a chegar, quero todos lá antes de mim.

            Estou andando pela rua, deixando o tempo passar. Hoje não quero reparar na felicidade dos outros e não quero julgar se são melhores ou piores do que eu. Hoje quero olhar para mim. Começo a ouvir músicas na minha mente e são músicas de que gosto.

            Meu deus! Estou na rua que não deveria estar. São oito da noite. Não é muito tarde, mas, na rua em que estou, é hora suficiente para as meninas ganharem a vida com o próprio corpo. Aperto o passo para sair logo.

Cruzo com algumas garotas e começo a andar ainda mais rápido por uma calçada em que, de um lado, é o muro da linha do trem e, do outro, a rua em que os carros passam bem devagar. Passam tão devagar que os meus passos apressados são mais velozes.

As janelas começam a se abrir e eles a falarem palavras para mim que nunca ouvi. Ele nunca me chamou de “gostosa” ou nunca disse que sou “uma delícia”. Os meus passos diminuem. Mais palavras, e consigo rir com vontade de novo. Quase choro, só que, dessa vez, de alegria, e não de tristeza.

            As palavras estão me atraindo, começo a querer mais do que palavras. Percebo os olhares e lembro que ele nunca me olhou desse jeito. Ele nem me olha, quase sempre entra em mim de olhos fechados ou olhando para a cabeceira.

            Um pingo de juízo entra na minha cabeça e novamente aperto o passo. Um Corcel II amarelo começa a me seguir. O medo, o desejo e a sacanagem começam a confundir minha cabeça.

A janela está aberta e dois rapazes, um no carona e o outro ao volante. Imagina o que dois caras podem fazer comigo? Nada pior do que ele faz todas as sextas há tantos anos. Será que eu devo?

Como cordas atiradas por boiadeiros experientes e eficientes, as palavras vão me laçando e puxando para mais perto deles. Minhas pernas ficam pesadas e trêmulas. Diminuo os passos na sincronia de que eles diminuem a velocidade e chegam mais perto do meio-fio. Eu paro desejando ser raptada, e sou.

            Jantamos no silêncio de sempre. A única diferença são meus pensamentos. Tuca come na frente do computador, em “seu” quarto que não é seu. O silêncio é quebrado por ele, nem noto as palavras. Estou pensando na noite, uma alegria que nunca experimentei. Até fiz o bolo de fubá que ele tanto gosta.

            Foi para a cama. Estou sentada no vaso, esperando todos dormirem. Diferente do pânico que sentia quando estava na cama esperando ele entrar, dessa vez estou tranquila. Sei que vou fazer o melhor para todos nós.

            Vou para o quarto. A minha certeza de ter feito a coisa certa aumenta quando o ronco ensurdecedor dele me diz que isso não vai ter fim se eu não colocar um. Hoje não é sexta, ele me deixou em paz. Estou em paz e feliz. Agora sei o que é gozar, gozo todo dia nas margens do trem.

Não. Meu deus! Hoje não é sexta-feira e me levanto correndo para desligar o gás. Graças a deus! Ele continua a roncar e fico feliz por não ter tido coragem. Viro para o lado e durmo para sonhar com a calçada nas margens da linha férrea e sei que não vai ser pela última vez.

Acordo no horário certo. Vamos continuar aqui, o imprestável vai continuar roncando. O pior que vai continuar a invadir meu corpo às sextas-feiras… continuam as aporrinhações, gritarias, xingamentos, roncos e arrotos… O odor de alho seco e aquela baba nojenta que cai no meu rosto quando me viola… Estou com remorso de não o ter matado.

Todas as noites, sou a última a chegar. Isso ameniza minha vida mais ou menos. Não me sinto usada, porque, na pista, posso até ser surrada que me dá prazer. Por várias vezes, apanhei e, em todas, fui eu que pedi. Seria mais fácil de entender se você tivesse uma vida de merda como a minha. Todas as noites, quando chego, tenho a sensação de que Poliana, minha vizinha cega, me vê vestida com aquelas roupas e maquiagens extravagantes que uso todo final de tarde para me sentir viva. Não uso mais gel às sextas-feiras. Apenas não tomo banho quando chego da rua, a rua da calçada das margens da linha férrea.

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