
Depois de horas na estrada de chão alaranjado por conta do intenso calor, o Opala Diplomata 87 para por falta de combustível. Visgo de Jaca, um assassino de aluguel, esmurra o volante. Sai do carro batendo a posta com raiva. Olha para todos os lados e só vê estrada de terra e moitas de capim. Não vê casa. Não vê uma viva alma. No fundo mesmo, queria achar algum passarinho.
Anda até a traseira do Opala, abre e escolhe a arma. Observa a sua volta, pega o trinta e oito, coloca na cintura e fecha a tampa da mala.
Empurra o Opala para fora da estrada. O colarinho encharcado da camiseta denuncia o esforço de homem branco e urbano. Finalmente acha uma moita de capim mais alta. Tenta esconder o veículo o máximo que pode.
Anda pela estrada sem saber o que procura. Barba e cabelo por fazer, trinta e oito na cintura e o cansaço de horas andando. Coloca as mãos nos joelhos, firma os olhos e avista um casebre ao longe.
Um casebre e mais nada. Aproxima-se e escuta um cantarolar abafado. Bate na porta de madeira velha.
— Oh de casa!
Bate na porta novamente.
— Alguém aí?
Pega o trinta e oito e empurra a porta bem devagar.
— Por favor. Tem alguém aí? Eu sou de paz.
Entra e descobre que o cantarolar é da vitrola verde no canto que reproduz o LP de Clara Nunes. Aproxima-se e tira a agulha de sobre o disco. Sem o Canto Das Três Raças, escuta o canto de um urubu e um amolar de faca. Encosta a orelha na parede. O som vem de trás do casebre.
Sai do casebre e dá a volta até aos fundos.
— Tarde moço. — Fala a jovem negra que amola um facão no esmeril a pedal.
Visgo de Jaca guarda o trinta e oito ao avistar a rolinha e diz:
— Eu sou de paz moça, não precisa ter medo.
— Não tenho.
— A moça está sozinha? — pergunta pensando como uma rolinha não tem medo de Visgo de Jaca.
— Aham.
— E seu pai?
— Não tenho faz tempo, moço.
— Mora com seu marido?
— Não tenho ninguém nesse diacho de vida não.
— Não acredito que vive sozinha nesse fim de mundo.
— Vivo sim, eu e meu facão. — Fala prestando atenção no amolar do facão sem olhar para Visgo de Jaca.
— A moça não pode ficar sozinha nessa terra de ninguém.
— Eu vou para onde moço? Como que saio daqui, me ensina?
— E não tem nadinha de medo?
— Olha a volta? — Aponta com o facão e continua: — Acha que eu posso me dar ao luxo de ter medo? Ou confio no meu facão ou não tenho o que fazer.
— Preciso de água e comida.
— Tudo que tenho ta lá dentro.
— A moça podia me servir?
Levanta-se, coloca o facão próximo ao amolador e caminha para a porta.
Visgo de Jaca analisa o corpo da moça. Pele brilhante e firme. A roupa leve e transparente ressalta o corpo jovem e bem definido. Rolinha perfeita para o abate.
— Vem moço. — Chama sorrindo.
Dentro do casebre, Visgo de Jaca come farinha com feijão sentado a beira da mesa de madeira. Enquanto come observa a moça de pé e pergunta;
— Não vai comer?
— Não senhor.
— Come um pouco.
— Não quero.
— Vamos, vem cá.
— Pode comer sossegado moço, não to com fome.
— Vem cá.
— Para que?
— Vem, não tenha medo.
— Acho melhor o moço comer em paz e depois ir.
— Posso te tirar daqui, desse fim de mundo.
— O moço nem consegue sair, e vai me tirar como?
— Você é bem atrevida. Também é corajosa sem o facão?
A moça corre para a porta, mas Visgo de Jaca levanta mais rápido e bate a porta.
— Só nós dois aqui moça, para de bobagem.
— O moço disse que era de paz.
Ela corre para trás da mesa, ele joga a mesa de perna para o ar. Segura pelos braços e a espreme contra parede de pau a pique.
— Sabe quanto tempo estou nessa estrada?
A garota mexe com a cabeça negativamente.
— Nem eu sei. — Visgo de Jaca rasga a blusa da garota deixando seus seios à mostra. — Cometeu o erro de deixar o facão sobre o amolador, moça.
— Quem disse que era daquele facão velho que estava falando?
O urubu entra pela pequena janela e avança contra Visgo de Jaca.
— Não sabe mesmo quanto tempo está na estrada?
O urubu arranca o olho direito de Visgo de Jaca que grita de dor e, arranca a placa de metal do pescoço do animal.
— Facão e eu esperamos todos vocês. “Morra branco e viva o negro!”
O urubu brinca com o olho arrancado. Visgo de Jaca, tamponando o buraco na face, rompe a porta gritando.
— Vem Facão.
O urubu pousa no braço estendido da moça.
— Bom menino. — Alisa a ave.
Ofegante, Visgo de jaca chega ao Opala 87. Abre a mão e com o olho que lhe resta Le o que está escrito na placa de metal: “Facão de Zeferina — 16 de dezembro de 1788.”
A.J. Tolissano
Nota: Zeferina fundou o Quilombo do Urubu e se tornou uma importante personagem das insurreições negras na Bahia no século XIX. Valente mulher, ela organizou índios, escravos fugidos e libertos, no geral, que queriam a libertação para todos os negros na província do Salvador.
Fonte: ONG Sobre Viver.
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